Ubatuba em Revista

Birdwatching

Primavera, primeira verdade

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Impossível evitar a rima com as palavras ninho e carinho. Mais impossível ainda é evitar o carinho quando nos deparamos com um ninho.
Primavera é a época dos ninhos, basta parar um pouco e logo observamos a movimentação. Uma ave passa com raminhos no bico, outra recolhe musgos, outro casal todo atarefado com a construção do futuro lar.
Existem ninhos para todos os gostos. Desde a sólida casa do joão-de-barro, o ninho ao embalo do tempo do guacho, o ninho exagerado do joão-de-olho-vermelho, a singeleza do ninho do beija-flor, e até a simplicidade do ninho do bacurau. Todos são ninhos, esperança de vida e futuro.
É primavera. Tempo de namoros, de encontros (e contrariando Vinícius, sem desencontros) tempo de construção, de nascimentos e vida. Esta sim a primeira verdade, “prima vera” o inicio de tudo. Tudo se inicia com a luz da vida!
Seja na simplicidade, na engenhosidade ou no exagero de cuidados, o ninho representa o inicio da vida, o aconchego, a segurança e a esperança de futuro. Festejar o inicio da primavera observando as árvores restaurando suas folhas e suas flores, observar as aves construindo seus ninhos é festejar a vida no seu melhor sentido. E ter a certeza que a vida é certeza! Época de também contrariar Fernando Pessoa “navegar é preciso, viver não é preciso!”, pois quando escreveu estes versos devia ser verão, ou inverno, mas não era primavera. Viver é preciso! Primeira verdade. Navegar é preciso, segura verdade.
Que ousadia contrariar Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa em tão poucas linhas! Não é culpa minha. São coisas de primavera! Só a natureza pode contrariar nossos melhores poetas.
Logo teremos o zelo dos pais na alimentação e segurança dos rebentos. Logo teremos filhotes aprendendo a voar e a se alimentar. Logo teremos juvenis, tal qual nossos adolescentes, vestidos com ousadia e  fazendo trapalhadas pela mata. Esta é uma época maravilhosa!
Olhe pela janela, saia de casa, caminhe pela mata e aproveite a melhor época de festejar a vida. A natureza está em plena festa. Venha junto. Observe a vida, observe as aves.
Festeje a primeira verdade. Primavera. Faça o melhor da vida!

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #13 - Clique aqui e confira a revista na íntegra

 

A Beleza das Aves em seu Cotidiano

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As aves nas cidades do Litoral Norte Paulista, em particular, são abundantes e de grande diversidade até mesmo em centros urbanos, podemos frequentemente flagrar as mais belas e coloridas aves em diversas situações, entoando maravilhosos cantos, espreitando uma oportunidade de se alimentar, voando com tanta graça ou cuidando de sua prole.
A proximidade das áreas urbanizadas de nossas cidades com Parque Estadual da Serra do Mar, confere-nos grande riqueza na diversidade de aves, uma vês que as áreas protegidas por lei correspondem cerca de 80% de todo território, destacando-nos como as cidades de maior ocorrência de espécies no mundo.
No entanto, o cotidiano da vida moderna, as pessoas em função de suas atribuições, dos deveres sociais do dia a dia, acabam mantendo o foco apenas em seus compromissos e, por muitas vezes se furtam do privilegio de contemplar momentos impares, onde só quem vive em terras como as nossas pode presenciar: a beleza das aves em seu cotidiano.
Vivendo no litoral, não é raro deparar-se com oportunidades belíssimas de deslumbrar-se com cenários naturais, no entanto em diversas circunstâncias, percebemos que apenas somos o único que está extasiado com a paisagem em meia as pessoas, seja com a lua aparecendo no céu, um pássaro colorido pousado em uma árvore ou um tom de mar azul.
Assim é o cotidiano, parece cauterizar os sentimentos, nas grandes metrópoles ou aqui, as muitas preocupações sempre nos afligem, mas saber parar é uma dádiva para os sábios, não perder a sensibilidade é o maior segredo. Poder contemplar uma revoada de dezenas de garças e biguás em um fim de tarde, detalhe, dentro de uma área densamente urbanizada é uma peculiaridade caiçara!

foto:  Marcio Toledo

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #13 - Clique aqui e confira a revista na íntegra

 

As Aves do Caiçara

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O sol clareando um dia em um canto de praia, casa modesta que desperta deixando um cheiro de café no ar, do lar, sai assobiando uma musica já desconhecida pelo radio, chinelos havaianas, calça rota, agasalho velho desbotado e um boné de propaganda amassado na cabeça, no terreiro o galo cantando e acordando as galinhas, o pato, o ganso, o peru e o marreco.
Um passo na frente do outro, segue com um remo apoiado nos ombros, este canto de mundo é todo o seu mundo, seu e da araponga, do papagaio, do coleirinha, do tié, do bonito lindo, da saíra, do sanhaço, do sabiá, da andorinha, do bem-te-vi, do tico-tico, da curruíra, do pica-pau, da saracura, do beija-flor, do surucuá e todos os outros que com seu canto enchem de alvoroço a copa das arvores.
Na praia, o sol imposto dissolve a nevoa da manhã, que disfarça o contorno da Serra do Mar e evidência o rosto marcado pelo vento, pelo sol, pelo sal e pelo tempo. Remando a canoa visita a sua rede e com as mãos calejadas, retiram os peixes emalhado, os miúdos jogados ao mar sempre encontram o bico da fragata, do trinta-réis, da gaivota, do atobá ou do biguá.
Acompanhando as marolas e remando de volta as areias, as garças sabidas se amontoam no canto da praia para dançar, enquanto esperam os peixes serem limpos e terem sua parcela.
Lugares assim são poucos e cada vez mais raros, quase um folclore, com esta cena em mente, recorda-me das palavras registradas no livro “A Ferro e Fogo – A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira”, em que o autor relata as palavras do maior madeireiro do Brasil na década de 70, onde o Sr. Rainol Grecco indaga: “Você já pensou nas suas conseqüências? A conseqüência é o lucro!”
Impressionante como as palavras ditas há tanto tempo, são tão atuais, fica aqui o alerta para refletirmos no que mudou, no que ainda vai mudar nas terras tupiniquins e o que faremos para termos a sustentabilidade que atualmente ouvimos falar.

Foto: Marcio Toledo

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #12 - Clique aqui e confira a revista na íntegra

 

Padre José Anchieta e os Ornitólogos

Beija-flor-de-fronte-violeta (Thalurania glaucopia)

Em uma rotineira saída de campo para observação de aves, após ter visto algumas dezenas de aves, me recordei de um manuscrito datado em 1560, conhecido como Carta de São Vicente, escrita pelo Padre José de Anchieta. Este documento foi uns dos primeiros relatos da biodiversidade da Mata Atlântica.
O padre ao descrever sua impressão quanto às aves do Brasil, relata: “Em verdade, não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores”.
Realmente, mesmo os ornitólogos experientes se deparam com o mesmo dilema de Anchieta! Como retratar tanta beleza de cores apenas com palavras?
Para sorte dos ornitólogos modernos, podemos contar com diversos equipamentos, tanto para gravação da vocalização de seus cantos como para o registro fotográfico de toda sorte de aves existente.
Ainda na mesma carta, dentre as muitas espécies citadas, Anchieta faz uma menção aos nossos beija-flores: “Há ainda outros passarinhos, chamados guainumbi, os mais pequenos de todos; alimentam-se só de orvalho; desses há vários gêneros, dos quais um, afirmam todos, que se gera de borboleta”
Não nos admira este relato, onde os povos indígenas acreditavam que uma espécie de beija-flor tenha se originado de uma espécie de borboleta, ainda mais quando os observamos em meio às flores, alimentando-se de néctar.

Beija-flor-de-fronte-violeta (Thalurania glaucopia)

Fotos: Marcio Toledo

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #11 - Clique aqui e confira a revista na íntegra

 

Choquinha-de-Peito-Pintado em São Sebastião

Em uma rotineira saída de campo no Sitio dos Jequitibás, no bairro de Boiçucanga, por volta das 11 horas da manha, quando a Equipe Birdwatching São Sebastião pensava no que ia almoçar e que não veria mais nada de novo para aquela saída, um canto tímido entre as copas das árvores, abafado pelo barulho da cachoeira que estava alguns metros do local, fez despertar uma curiosidade peculiar.

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