Uma paixão que nasceu na infância e que se profissionalizou com o voar dos anos. Integrante do Ubatubabirds, atuante em ações sociais dirigida a criança e capacitador de Guias de Observação de Aves Bilíngues em nossa região, o inglês Rick Simpson há dois anos em Ubatuba, está fincando suas raízes em terras tupinambás com propósito de grandes vôos.
Birdwatching
As pernas pretas da saí
- 31 Dec
- Escrito por Carlos Rizzo

Dia desses estava lembrando quando a vi pela primeira vez, foi em 1998. Saí-azul-de-pernas-pretas, desde aquela época já era rara em Ubatuba e desde lá fiquei sem avistar as pernas pretas desta saí-azul.
Em 2007 lançamos um desafio “ganhe dinheiro fotografando pernas” queria que queria ver novamente as pernas da saí. Teve um biólogo que em 2008 anotou esta avezinha num levantamento na praia do Felix fui atrás e ele sequer se dignou a me dar as indicações do local. Agora, 11 anos depois elas reaparecem. E aí está, clicada pelo Rafael Fortes a sai-de-pernas-pretas, o nome científico Dacnis nigripes.
Esta avezinha está em sério risco de extinção, muito exigente na alimentação, tem visto o seu habitat cada vez mais reduzido pela ocupação humana. É uma ave exclusivamente brasileira e mais exclusiva desta faixa litorânea que vai de Santa Catarina até o Espírito Santo em graus diferentes de risco. Está faltando área para a vida da saí e a tendência é faltar cada vez mais.
Tinha medo de imaginar que o não avistamento nesses 11 anos, fosse o fim de uma espécie em Ubatuba e as fotos do Rafael Fortes é um alento.
As fotos estão aí para os amigos que nestes anos tentaram ver as pernas pretas da saí, primeiro para acreditarem que ela existe e, segundo, para que continuem procurando as pernas pretas da saí-azul.
Fica a certeza de que Ubatuba é o refugio ideal e que existem aqui muitos lugares bons para a vida desta ave.

Fotos: Rafael Fortes
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #08 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.
Novo beija-flor em Ubatuba
- 31 Dec
- Escrito por Carlos Rizzo

Pode parecer poesia da minha parte, mas só quem vive o dia-a-dia da observação de aves para entender as emoções que nos invadem. Todos os dias recebo um presente e quem observa aves sabe que é real, todos os dias sempre tem uma novidade a alegrar as nossas vidas.
Em certos dias pode ser um novo jeito de qualquer pardal, outros dias o avistamento de uma ave especial e de quando em vez, uma nova espécie que não conhecia. É assim, sempre uma novidade e sempre um presente dessa natureza exuberante que convivemos em Ubatuba.
Acompanhando uma equipe do Discovery Channel na filmagem de quatro programas sobre as aves de Ubatuba deparei com este beija-flor, absolutamente incomum em Ubatuba. Como explicar o encontro de uma espécie nunca registrada em nossa cidade? Uma espécie que é do norte do Brasil aqui no sudeste e, logo um juvenil.
Presentes! Nada mais que isso. Uma alegria que não cabe em palavras, e melhor, que tive a oportunidade de clicar e poder comprovar. Ele está aqui!
A espécie tem o nome comum de beija-flor-vermelho, Ruby-topaz hummingbird em inglês e, seu nome científico é Chrysolampis mosquitus. Com 9,5 cm, tem o tamanho pequeno para um beija-flor.
Sempre tive certa predileção pelos beija-flores, são seres especiais! Só existem nas Américas, são 300 espécies no total, temos 72 espécies no Brasil e agora, com este novo, 26 em Ubatuba, quase 10% de todas as espécies de beija-flores existentes no mundo! Dez por cento é pouco? Então faça as contas comparando o território de Ubatuba com a extensão das três Américas.
Para facilitar vamos comparar com o Canadá. No território do Canadá cabem 14 mil “ubatubas”, eles têm somente duas espécies no país inteiro, e nós 26. Comparando territórios, eles teriam que ter 360 mil beija-flores para terem a mesma quantidade que temos aqui.
Chega de números? Não! Os beija-flores pesam em média 2 gramas, consomem 5 mil calorias por dia, o coração deles trabalha a 280 batimentos por minuto. Números que assombram e nos fazem apaixonar tornando inevitável a poesia. Simplesmente é assim: Viver em Ubatuba é pura, e real poesia!

Fotos: Carlos Rizzo
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #07 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.
Sinal dos tempos
- 31 Dec
- Escrito por Carlos Rizzo


Conversando com as pessoas sobre este nosso inverno é comum encontrar disparidades. Uns afirmam que este inverno está mais frio, outros são categóricos ao dizerem que está mais quente.
Sensação individual de frio ou calor não é um parâmetro confiável. O correto é esperar o final do inverno e comparar com as estatísticas dos anos anteriores. Ou observar o comportamento das aves. Afinal elas não têm calendário e a vida no ambiente obriga a se preocuparem com a sobrevivência.
As aves iniciam o período reprodutivo somente com a garantia de alimentos para os filhotes que vão chegar. As baixas temperaturas de um inverno normal reduzem drasticamente a oferta de alimentos na mata, por outro lado, a elevação das temperaturas e o aumento da oferta de alimentos são garantia de vida para os filhotes.
A conta do tempo e de alimentos sempre tem que dar certo, pois as aves jamais expõem seus filhotes ao menor risco de fome, nem seus juvenis à competição desigual com adultos numa época de escassez de alimentos.
Contradizendo o nosso calendário podemos observar a
lgumas coisas diferentes no comportamento das aves.
O nome da araponga (ave que ilustra o início dessa matéria) já diz a sua função (ara- tempo; ponga barulho, aviso, sinal) não se ouve a araponga no outono/inverno, ela vocaliza somente na primavera/verão. Este ano a araponga começou a bigornear no começo de julho!
O macho sabiá-una (a direita) adquire esse bico amarelo somente no período reprodutivo, em julho ele já estava enfeitado se exibindo a procura de uma parceira!
E o que dizer do juvenil deste tiê-sangue (a esquerda) que fotografei no começo de julho? Ele competia com adultos no comedouro e perdia todas!
E por qual razão a saíra-militar (abaixo) está tão bonita? Essas cores bem definidas ela adquire para atrair as fêmeas. Apressadinha ela não é.
Todos esses exemplos estão adiantados, pelo nosso calendário, em pelo menos 45 dias, alguém está fazendo as contas erradas. E, garanto, não são aves. Vamos esperar as estatísticas.

Araponga – Procnias nudicollis
Tié-sangue – Ramphocelus bresileus
Sabiá-uma – Platycichla flavipes
Saíra militar – Tangara cyanocephala
Fotos: Carlos Rizzo
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #06 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.
Falando de urubus
- 31 Dec
- Escrito por Carlos Rizzo - Fotos: Carlos Rizzo

Pode parecer estranho falar de urubus. Nos acostumamos a desprezar essas aves, esquecendo das suas características maravilhosas e do quanto elas são importantes.
O urubu comum foi a primeira ave brasileira protegida por lei federal, isso foi há mais de cem anos. Não fosse o urubu comum, nós humanos, estaríamos sujeitos a muito mais doenças.
Pouco olhamos para os urubus, no Brasil temos seis espécies dessa família, duas delas são especificas, uma da amazônia e a outra do pantanal e, muitos nem sabem que temos quatro espécies diferentes de urubus em Ubatuba.
O mais conhecido de todos é o urubu comum (Coragyps atratus, 62 cm) associado aos ambientes urbanos; nas bordas da mata, voando solitário, podemos observar o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura, 73 cm) e o mais difícil de observar, que é o urubu-de-cabeça-amarela (Cathartes burrovianus, 58 cm).
A quarta espécie, mas muito mais difícil de observar aqui em Ubatuba, é o urubu-rei (Sarcoramphus papa, com 79 cm) que de todos, realmente, é o mais bonito.
Todos são ótimos planadores, mas em minha opinião o urubu-de-cabeça-vermelha é o melhor e, compartilho da opinião de Tom Jobim que chegou a lhe dedicar um disco. O nosso Gastão Madeira dedicou-se a observar o vôo dos urubus e idealizou um mecanismo que permitiria a estabilidade do vôo dos aviões, princípio que é utilizado até hoje nas aeronaves. Isso foi em 1892, muito antes de Santos Dumont pensar no 14 Bis.
Os velejadores de vôo livre quando necessitam de uma corrente ascendente para voar com seus planadores, sempre buscam onde estão os urubus brincando de roda nos ares quentes, ali é certeza de vôo seguro e prolongado.
Aqui em Ubatuba o melhor lugar para se observar o urubu-de-cabeça-vermelha é indo no sentido de Itamambuca, logo depois da Praia do Alto, no começo da descida do morro em frente ao ponto de ônibus. Ali eles ficam brincando no ar e pela altura do lugar é muito simples de fotografar e se inspirar numa homenagem a Tom Jobim:
São vários os nomes deste urubu:peba, urubupeba, urubu caçador, achador, procurador, ministro, urubu gameleira, urubu-peru, perutinga, urubu-mestre...
Mestre é pra poucos!
Acariciado o piano, o mestre Tom Jobim anteviu tendências musicais olhando para os céus e invejando o mestre urubu apalpando e dedilhando o vento.

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #05 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.