
Pela primeira vez, no Brasil, uma baleia jubarte, que foi salva de um encalhe, é reencontrada com vida.
Em 2008, durante as atividades de rotina do Instituto Baleia Jubarte, em Abrolhos, os pesquisadores fotografaram uma baleia que estava na área de reprodução e compararam as fotos com o banco de dados dos anos anteriores. As marcas individuais indicavam que o animal era o mesmo que fora desencalhado em 2000, na praia do Bonete, em Ubatuba, mas a prova definitiva só chegou agora, com a resposta afirmativa da análise de DNA.
Embora já tenham se passado 10 anos, a operação de desencalhe continua viva na memória de todos que colaboraram para salvar a baleia. Foram seis horas de trabalho, sob a coordenação da equipe do Aquário de Ubatuba e do Projeto TAMAR-ICMBio, além do apoio do Instituto Argonauta, comunidade do Bonete, PETROBRÁS, Polícia Militar Ambiental, Corpo de Bombeiros, Fundamar e Prefeitura Municipal de Ubatuba.
A confirmação de que o animal está vivo foi muito bem recebida pelos pesquisadores do Aquário, que, neste ano, já registraram o recorde de 95 encalhes da espécie. Para o oceanógrafo Hugo Gallo, que coordenou a operação, na época, a noticia é gratificante e justifica a luta pela conservação das espécies.
Atualmente, o Instituto Argonauta, ONG presidida pelo oceanógrafo, aguarda patrocínio para a montagem de um Centro de Reabilitação de Animais Marinhos em Ubatuba.
A cantora do mar
A baleia jubarte é um gigante dócil e ágil. Sua força é esplêndida. Quando salta, consegue erguer o corpanzil inteiro até dois metros acima da superfície. Chega a realizar de 30 a 40 saltos seguidos. O mais impressionante é que pesa cerca de 30 toneladas e mede aproximadamente 16 metros.
Saltar é uma característica marcante das baleias jubarte, principalmente entre os filhotes. Acredita-se que seja uma simples brincadeira. Entre os adultos, pode ser uma forma de comunicação ou a maneira mais eficiente do indivíduo se livrar dos piolhos de baleia, um crustáceo que é encontrado próximo à boca e por toda a barriga. Apesar de não causar mal algum, incomoda quando em grandes concentrações. Assim como os cascos dos navios, as baleias servem de moradia a uma grande variedade de cracas e algas. Uma baleia sozinha pode carregar até meia tonelada de cracas.
Para alegria dos pesquisados, a cor e o formato da cauda – marcada, nas extremidades, por recortes irregulares – variam de indivíduo para indivíduo, como nossas impressões digitais.
Baleias adoram viajar. As que se alimentam no Ártico, entre junho e dezembro, passam a outra metade do ano no Caribe ou no Havaí, onde procriam e amamentam. As jubartes do hemisfério sul, por sua vez, começam a sair da Antártica a partir do mês de abril. Em grupos de 5 a 10 exemplares, percorrem cerca de 10 mil km em direção ao Brasil. Em junho, é comum vê-las em Abrolhos, que reúne todas as condições ideais para que elas possam dar à luz e amamentar: águas quentes, rasas e protegidas.
É um animal poligâmico. Os machos brigam pela fêmea, batendo na água com a nadadeira peitoral e caudal. Para atraí-las compõem uma música diferente por ano. A espécie também é chamada de baleia cantora.
Foi uma espécie muito ameaçada de extinção, pois possui características que a deixa à mercê dos caçadores: nada lentamente, perto da costa e, quando se encontra em áreas de reprodução, não tem o hábito de fugir das embarcações que se aproximam. Embora protegida da caça, da captura ou de outras formas de molestamento em águas brasileiras, conforme o Decreto Lei 7.643/87, as jubartes continuam sendo vítimas de capturas acidentais por redes de pesca. Agravada pela poluição em certas áreas onde elas ocorrem, a ameaça sobrevive. Se esses perigos forem ignorados, as canções que hoje vêm dos oceanos, poderão um dia vir do passado.