
Para começar acho que eu modificaria o título para “Quase descobrindo as Toninhas...” É que as coordenadas da matéria quem acabou dando foi o nosso convidado: Alexandre. E, nada mais interessante que acompanhar uma criança com sua visão de mundo e das coisas.
Nesta matéria vamos levar os baixinhos num divertido passeio à Praia das Toninhas. Para o cansaço dos altinhos, foi tudo legal!
Nosso convidado e sua família já estava de prontidão e combinamos o encontro num ensolarado dia de domingo. A aventura começa, quero dizer uma “luta” começa logo cedo e ainda nos preparativos.
- Passe filtro solar!
- Não quero!
- Vem aqui!
- Não vou!
- Não vou te levar heim!
- Vai sim, você já está arrumada e não vai perder a praia por mim.
(já viram este diálogo antes?)
O tempo da criança é igual ao do adulto, certo?
Errado!
Perguntei ao meu amiguinho se ele conseguiria descrever o trajeto de sua casa até à Praia das Toninhas. Sua resposta:
- Pra que? Ninguém se perde quando tem vontade de ir realmente a algum lugar. E daqui a pouco você vai chegar lá.
Se depender de comprovação na Teoria da Relatividade, as crianças podem ajudar um bocado. O tempo para elas é o agora e sabem perfeitamente encolher ou esticar de acordo com suas necessidades momentâneas. Os pais que o digam.
O agito é um disfarce da felicidade e quanto mais o tempo demora com aquelas coisas todas de adulto mais a criança encurta o tempo. Afinal 15 minutos até à praia é muuuuuuuuuuuuuuuito tempo!
No caminho eu até tentei acompanhar o ritmo da família, mas perdi o meu próprio. Entre as tradicionais seguradas de mão, de braço, pelo cabelo, etc , à soltura alegre na areia foi um embate terrível. Claro a criança ganha sempre, até mesmo quando não consegue exatamente o que quer. Adultos cautelosos podem e devem dizer não nas horas cruciais.
Depois do filtro solar, do carro, do trânsito, da dolorosa espera pela escolha do melhor lugar da praia - claro pelos adultos, pois criança não tem estas coisas, finalmente a liberdade! A Praia das Toninhas está ali e é só um passe livre!
- Já?
- Ainda não. Vamos aos conselhos: não se afastar de onde estamos, não ir para a parte mais funda, não se esquecer de voltar aqui em 2 minutos ...tudo bem: de 10 em 10 você volta....e por último: não se distraia com outras pessoas que não conheça. Beijos e vai com Deus! Mamãe te ama, papai te ama, titio de ama.....
- Vamos como assim? - não vai me deixar ir sozinho?
- Olhe a sua idade menino! Veja se vou deixar você ir sozinho! Vamos nós dois.
Acertado meio a contragosto, o importante é que estamos aqui...na praia lotada. Toninhas sempre fica lotada, mas finalmente estamos dentro d´agua. Que maravilha. De um lado e de outro, só diversão.
- Mas....onde posso arrumar uma prancha? (Sim por que menino que se preza na
praia, tem que ter uma prancha).
- E você sabe lá surfar menino! (La vem o adulto).
- Pra que? Basta cair n´água e a gente aprende.
- Nada disto.
- Eu quero!
- Não tem...
- Mas eu quero...
- Ano que vem...
- Mas quero agora!
- Não dou...
...mas....mas.....mas....
- Ok!
Tempo relativizado: vai uma de bodyboard. Nariz torcido, mas vai lá, melhor que nada.
- Como usa isto?
- Voce não disse que sabia? Agora tenta seu sabichão!
E não é que foi tentar. Encurtadas as dificuldades, consegue-se equilibrar numa prancha de bodyboard. Deitar é facil. Faz isso todos os dias. Mas como se movimentar?
- Empurrar ai?
Foi a primeira limitação enfrentada pelo baixinho autônomo. Nem tudo consegue-se fazer sozinho. E lá foi ele para lugar nenhum. Outro empurrão...outro...outro...desistir jamais! Adulto desiste fácil, mas criança encurta dificuldades. E então, quando todos estavam já cansados de empurrar ele entendeu que se ficar emparelhado com a onda, mas ligeiramente na frente, poderia aproveitar o movimento da água é ir. O movimento da prancha estava no desequilíbrio da onda. Lição preciosa para a vida toda.
E la vem ele, sorriso, sorrisos, zigue zagues, cai não cai.....e vitória!
Explicar como foi o dia na Praia das Toninhas pareceu-me impossível, mas o tempo vai guardar as melhores lembranças de um sorriso desafiador e a certeza de que tudo é uma questão de insistir.
Até a próxima!