Ubatuba em Revista

Benjamín González e Ubatuba

Lá ficou vivendo, lecionando desenho e pintura e criando motivos para a indústria têxtil – trabalho que já desempenhava em seu país de origem – o que o levou várias vezes à Europa, para acompanhar os caminhos da moda: “A cada vez que eu viajava à Europa, cumpria os compromissos do trabalho têxtil e aproveitava para ir a muitos museus estudar as obras dos grandes mestres, como Da Vinci e Michelangelo. Em uma das minhas viagens, fiquei dias em Florença, somente visitando e estudando as obras de arte.”
Uma coisa que sempre o incomodou era o pouco acesso da grande massa à diversidade das manifestações artísticas: “Sempre quis romper com a arte elitizada, que não chegava ao povo, ficava restrita às mansões e museus. Por isso, na época em que morava em Buenos Aires e São Paulo, a arte de rua me encantou muito.”
Em 1985, já morador brasileiro, Benjamín acampou em Paraty, onde lhe disseram que deveria conhecer Ubatuba. Pela curiosidade e pela ligação que tem com a natureza, veio e teve contato com algumas pessoas com quem manteve amizade e que, ao longo de algum tempo, o convenceram do quão importante seria a presença de alguém com o seu conhecimento aqui. Decidiu, então, fazer as malas e para cá veio, a fim de ensinar desenho e pintura, o que fez por anos seguidos, em seu ateliê e junto à Fundart.  “Nessa época, eu já tendia minha criação para a pintura abstrata, mas, ao chegar aqui, essa linguagem não foi assimilada e precisei voltar à arte figurativa. Isso gerou uma crise existencial na minha criação, o que me levou a obras mais expressionistas, expondo situações de muita força, como a fome, o desespero, sempre em telas grandes. Com o tempo, isso foi se geometrizando: estruturava o tema e usava essa estrutura como plano para colocar cores e fazer as composições. Entrei no mundo cubista. Era uma forma de eu renovar o meu trabalho, já que aqui não havia a diversidade das grandes cidades.” Inquietação típica de artista: se não há movimento no entorno, o movimento interno se encarrega de fazer as constantes revoluções.
Mais que isso – porque, para o criador, sempre há mais! – com o tempo voltou à arte abstrata: “Os críticos que analisaram meus trabalhos, nas versões do Mapa Cultural Paulista, das quais participei, sugeriram que eu destacasse detalhes das minhas obras e os reproduzisse em dimensões maiores. Dessa concepção nasceram novas telas. Quando pinto me sinto livre de qualquer obstáculo que possa me impedir de colocar na tela minhas emoções. A arte, pra mim, é liberdade. A mesma liberdade que sentia na infância, quando cavalgava pelos campos de Corrientes.”
A foto de capa dessa edição, realizada na paisagem da Praia Vermelha do Norte, não foi uma mera escolha ao acaso. O lugar foi sugestão do próprio Benjamín, que revelou tal paisagem ser uma de suas maiores inspirações. “Ubatuba foi minha fonte de inspiração para a pintura abstrata. A natureza aqui é repleta de formas e suas formas são as mais belas que já conheci.”
Quando o assunto é ser professor, Benjamín ressalta seu prazer em dar aulas: “Ensinar artes ajuda o indivíduo a se descobrir e se comunicar melhor com a sociedade; o ajuda a sensibilizar-se, a pertencer ao mundo dos sensíveis e isso colabora com a criação de um mundo sem violência. Ensinar artes ajuda o indivíduo a ter luz e cores em seus caminhos.”
De forma aparentemente contraditória, mas realmente complementar a esse pensamento, o artista ainda afirma: “A arte conduz solitários em direção a outros solitários”. Solitariamente ou em duplas, trios ou grupos, vale parar em frente às obras deste grande pintor e se deixar tocar pelas luzes e cores que ele nos comunica.
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