As mães são muito sós para lidar com o filho e ainda dar conta do serviço de casa. Mães executivas e mesmo operárias têm que se desdobrar entre sair de casa para o trabalho e dar atenção ao filho.
Nos primeiros meses, fica mais fácil devido à licença-maternidade, agora estendida para seis meses. Nem todas têm acesso a esse tempo, que é demandado pela natureza como essencial à formação plena da criança saudável física e emocionalmente. As atuais famílias nucleares não contam com avós por perto, para ajudar nessas tarefas, que demandam tempo, concentração, cuidados. Nota-se que grande parte enfrenta dificuldades nos primeiros dias de amamentação. Parentes e até profissionais nem sempre estão prontos a incentivá-la, a ter paciência com ela, para que não desista de amamentar. Informação, apoio, exemplo de amigas, são fatores positivos para que ela persista e tenha êxito na importante função de lactante.
Pois a internet veio em seu auxílio. Em tempos cibernéticos, mães têm procurado participar de listas de discussão sobre filhos, maternidade, amamentação, tipos de parto, vacinas, etc. Elas se sentem à vontade em fazer e responder perguntas, falam de seus problemas pessoais, enfim usam esse meio de comunicação virtual com as limitações próprias, mas com grandes possibilidades de interação. Em março de 2005 criei uma comunidade no Orkut, chamada PEDIATRIA RADICAL. O nome era provocativo e o sentido era mostrar a vinculação entre criar filho e a raiz: a mãe-natureza, que rege os processos biológicos concernentes ao crescimento da criança, um ser em permanente desenvolvimento.
Durante muito tempo tive que responder a mim mesma sobre o porquê de criar uma comunidade virtual de PEDIATRIA PARA AS MÃES. Eu sabia que não era só para informar ou trocar idéias, mas ainda não tinha noção do alcance que a comunidade viria a ter entre os participantes, principalmente em matéria de amizade e solidariedade. Acabei encontrando uma explicação fundamentada, sobre essa busca que se faz, pela Internet, de conhecimento e amizades: “Muito mais que conhecimento formal, as redes articulam convívio, solidariedade, mobilização. Esse conhecimento está impregnado nos mutirões. É só chegar para ajudar o ser humano ser mais feliz. Uma mobilização que vai além da boa ação. É cotidiana e despretensiosa”, segundo Howard Rheingold.
Por que as comunidades que falam de crianças são eficazes e interessantes? Porque nelas se compartilham experiências, troca-se o que se aprende na vida, relacionamentos acontecem em extensão e profundidade. Cada participante pode tomar iniciativa de abrir tópicos ou respondê-los. Há entusiasmo, persistência, solidariedade. É um espaço para falar da criação de filhos, interagir com os demais sobre suas vivências de mãe, pai ou cuidador, fazer amizades virtuais, que se vão tornando reais. Além disso, a comunidade tem conseguido criar fundos de emergência, por meio de sorteios de livros e objetos doados pelos próprios participantes, para socorrer mães cujos filhos apresentam alguma doença grave que requer deslocamento e/ou internação hospitalar.
Pediatria ou puericultura que, em sentido amplo, é o cuidar da criança, é exercida o tempo todo pela mãe, nos cuidados, no aleitamento, na procura incessante do melhor para seu filho. PEDIATRIA RADICAL é a pediatria voltada para as mães, e é feita pela troca de experiência de umas com as outras e de todas com as moderadoras, num ambiente facilitador que resulta em aprendizado mútuo e dinâmico. Os principais temas abordados têm sido: gestação e parto, com ênfase no parto natural; cuidados com o bebê, com ênfase em colo, embalo, acalanto; alimentação da criança, com ênfase no aleitamento materno; promoção da saúde infantil, com ênfase na vida ao ar livre, para reforçar as defesas orgânicas e psíquicas; e na proteção à criança, com ênfase contra o abuso de qualquer natureza e contra a violência à criança, a começar no domicílio, onde acontecem os abusos mais comuns e a violência da palmada, da chinelada, do cinto e da vara ‘corretivos’, sob pretexto ‘pedagógico’.
Os participantes são inteligentes e entusiasmados, abraçando as campanhas promovidas pela comunidade e interagindo dinamicamente em todos os tópicos discutidos.
A comunidade PEDIATRIA RADICAL no Orkut conta com mais de 13.000 participantes. A inovação consistiu em usar uma ferramenta já existente – a rede social Orkut – para essa comunicação entre membros de todos os estados brasileiros e de países do exterior: Alemanha, Argentina, Austrália, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Portugal. Com minha longa kilometragem de pediatra, procurei e encontrei um canal para repassar o que aprendi, li e vivi, trabalhando com crianças de todas as classes sociais. Trabalhei principalmente com as menos favorecidas, ainda na época da desnutrição franca, das epidemias de sarampo, pólio e meningite.
Fernando Pessoa costumava dizer que as cartas comerciais eram o último reduto da civilidade. Isso porque ele nunca leu os scraps do Orkut, cobertos de beijos, abraços, votos de feliz semana, encontros marcados, vida real. Cada pessoa trazendo o melhor de si.
Uma comunidade virtual de pediatria para mães
- Sáb, 20 de Março de 2010 22:52
- Thelma B. Oliveira