Ubatuba em Revista

Enfim o carnaval e com ele as máscaras

De certo parece existir uma mescla de elementos simbólicos que ao longo dos séculos vieram somar à alegria dos festejos populares. O Rei Momo, por exemplo, seria uma personificação de Dionísio, influência grega ou de Baco, do panteão romano, patrono do vinho e do seu cultivo. Neste sentido os festejos que honravam as colheitas eram muito parecidos em diversas culturas primitivas.  E a história nos mostrará tantos detalhes desta construção quanto mais quisermos aprofundar, mas não é este o nosso objetivo e sim falar das máscaras de carnaval.
Na Grécia de aproximadamente 600 antes de Cristo elas aparecem e de forma curiosa. As máscaras ‘per son’ - para som - eram utilizadas no teatro grego como suporte a pequenos instrumentos semelhantes aos nossos megafones atuais,  para projetarem a voz, naqueles tradicionais anfiteatros, a céu aberto e em forma de arena. Daí o nome máscara per-son que mais tarde serviu para designar a personalidade, a personificação e os personagens - máscaras que utilizamos em nossas relações sociais.
Nem todos concordam, mas o fato é que utilizamos muitas máscaras no dia a dia e elas trazem características do que gostaríamos de ser ou fazer. Como válvula de escapes, elas chegam às festas trazendo o sentido de liberdade daquilo que move parte de nossas fantasias e assumem por alguns dias a irreverência,  identidade e os desejos de muitos.
Dos bacanais, saturnais e lupercálias em honra a Baco, Saturno e Pã, as festas ditas pagãs chegou à toda Europa e as máscaras juntinho ali. A Igreja Católica minimizou a importância de tais festas e com a criação das dioceses, os festejos ficaram circunscritos às regiões de origem se mantendo sob a forma de festas populares, cristianizadas e proibidas se fossem realizadas de forma primitiva.  Muitos delas passaram se chamar carnaval – carne vale – pelo fato de acontecerem num período anterior ao da abstinência da quaresma, quando era proibido comer carne.
A tradição religiosa deu uma forcinha para transformar o sentido do ‘carna vale’ em ‘festa da carne’ alusivo à luxuria dos tradicionais banquetes do fim da Idade Média e Renascença. Mas ainda assim o carnaval recebeu importantes contribuições dos religiosos no sentido de organizar os festejos. O Papa Paulo II, por exemplo, contribuiu para sua organização e tradição ao introduzir o Baile de Máscaras, permitindo que a festa neste formato fosse realizada em frente ao seu palácio com o objetivo de festejar a alegria e as conquistas, distanciando-se das origens pagãs. Daí surgiu o célebre Carnaval de Veneza, cujo modelo inspirou dezenas de outros por toda a Europa, vindo a influenciar o Novo Mundo a partir da colonização espanhola e portuguesa.
Ainda em 1545 no Concílio de Trento, definiu que o carnaval seria uma festa popular e as características regionais passaram desde então serem representadas pelos adornos principalmente e figuras populares, como o velho e a velha do carnaval de Val dei Mòcheni ou o oiertrógar que passava de aldeia em aldeia recolhendo ajudas e pedidos, usando uma máscara negra durante os dois dias de festejos.
Ainda na Itália em Bagolino-Ponte Càffaro existem até hoje os Balarì, que acompanhados pelos Sunadùr (violinos e viola baixa) realizam danças cerimoniais carnavalescas junto aos Mascher, dançarinos em roupas muito coloridas, com máscaras que lembram as do carnaval de Veneza.
Mascarados ou não, a tradição chegou ao Brasil e os primeiros bailes carnavalescos reviviam personagens do velho mundo, recriando as festas de cortes e a nobreza, experimentando uma alegria e despojamento que acabou por transformar o Brasil numa das maiores referências carnavalescas do mundo.
Por aqui, o uso de fantasias e máscaras começou 1870 e teve seu apogeu em 1930 praticamente já espalhado por boa parte do país. Em 1950 a tradição começou a cair, justamente no período de forte industrialização, se mantendo  ainda nas cidades do interior,  nos bailes privados e nas festas públicas destas cidades, principalmente aquelas de herança colonial, as máscaras dão o colorido e a tom da folia. Confeccionadas no estilo veneziano ou influenciadas pelos mitos brasileiros, são produzidas em sua maioria de forma artesanal e ornadas de forma tão criativa quanto extravagante.
Em São Luiz do Paraitinga, cidade serrana que fica entre Ubatuba e Taubaté, uma semana antes do Carnaval é realizado o Festival de Marchinhas Carnavalescas,  selecionando as músicas que serão tocadas pelos tradicionais blocos de rua – normalmente canções que falam sobre a cidade, seu povo e o cotidiano. O costume vem da década de 1920, atraindo em média 15 mil foliões por dia. Uma característica marcante do Carnaval da cidade são os bonecões feitos em papel marche e as máscaras que representam personagens da cultura popular local.
Neste ano, infelizmente a festa não irá acontecer devido às fortes chuvas que caíram na cidade durante o mês de Janeiro.
Em Ubatuba a tradição também se mantém e os bonecos e máscaras fazem a festa dos foliões saindo pelas ruas atrás dos blocos caricatos ou embalados pelos folguedos de algumas comunidades. Na praça da matriz, região central da cidade, você poderá participar do carnaval de marchinhas, bem ao estilo tradicional: festa, alegria, famílias e amigos reunidos e muita folia. Coloridas e feitas por mãos hábeis, as mascaras estão lá, representando o imaginário de um povo e suas tradições, se mantendo apesar da drástica mudança nos costumes carnavalescos embalados por um trio elétrico.
Unindo a tradição de São Luis do Paraitinga à alegria de Ubatuba, festejar o carnaval por aqui será reviver as tradições caiçaras com muita alegria e irreverência.
E você, já pegou sua máscara, sabe as marchinhas desta temporada? O que está esperando?
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