Ubatuba em Revista

A individualização e a crescente prática de contatos eletrônicos, somado ao gigante estímulo ao consumo de tudo o que não precisamos, criou uma geração desinteressada de coisas como qualidade e excelência profissionais, prática de vivências em grupos que possam discutir idéias e estimular o senso crítico e formação de grupos familiares (com a consciência do grau de compromisso exigido, quando se é mãe ou pai).
Hoje é muito comum vermos pessoas na faixa dos 30 anos de idade, com comportamento similar ao dos adolescentes de vinte anos atrás. Trabalham pelo simples fato de que precisam ocupar seu tempo com alguma atividade e pagar contas ordinárias. Ainda moram nas casas de seus familiares, isentando-se da responsabilidade de administrar a vida doméstica; usam e são usados por seus pares em relações meteóricas, que primam pelo não envolvimento emocional e pelo descompromisso. Aliás, descompromisso é o lema da atualidade, em todos os campos da vida.
Essa condição traz uma inegável sensação de liberdade absoluta. E, em certa medida, essa liberdade existe mesmo, está aí. Mas, e se fizermos um exercício de distanciamento brechtiano (Brecht, dramaturgo alemão que lutou contra os ideais nazistas, propõe em suas peças, o que chamou de “distanciamento” – condição na qual o espectador da obra consegue não se deixar cegar pela emoção, consegue ter uma visão racional, olhar “de longe” o que se apresenta a seus olhos e analisar o que vê) e partirmos para pensar sobre quem ganha com essa adolescência retardada?
É claro que pessoas descompromissadas com outras pessoas podem se dar ao luxo de alimentar somente os seus próprios desejos. Quem não é casado não precisa pensar em gerir contabilidades conjugais, quem não tem filhos não se desgasta com planos de futuro, quem tem na profissão apenas uma ocupação, não tem por que se dedicar a algum tipo de crescimento. De certa forma, as antigas ambições se transformaram na ambição de ter um celular novo a cada mês, de ter o carro do ano, de colecionar relacionamentos relâmpagos, de curtir uma balada a cada noite.
Hoje consome-se muito mais supérfluos e inutilidade que há 10 ou 20 anos. E com a sensação de que são desejos pessoais e próprios que conduzem essa postura. Mas não! Não são desejos pessoais e, muito menos, desejos próprios. São desejos do sistema social, impostos de maneira silenciosa, sutil e sedutora, tão sedutora que nos convencemos de que só podem ser nossos desejos e nos satisfazemos tanto com a aquisição de mais uma novidade de consumo, com a certeza de que somos, cada vez mais, pessoas bem sucedidas.
Alguém ganha com isso e não são os consumidores. Certamente, os produtores dos supérfluos têm suas ambições muito mais satisfeitas. Quem fabrica e mantém esse sistema de consumo põe, no próprio bolso, o dinheiro desses adolescentes de 30.
Então, onde está a liberdade?
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