Ubatuba em Revista

CULINÁRIA REGIONAL, EM 1500

Quem de nós, que nos dias atuais entra nos mercados em busca de qualquer ingrediente para preparar um prato, pode imaginar como isso seria impossível lá pelos idos de 1500 – 1650, aqui por estas paragens.  A começar que, além das roças indígenas de mandioca e do simples extrativismo vegetal (frutas, principalmente) e animal (caça e pesca), nada estava à mão dos colonizadores que se aventuravam além-mar.
Padre José de Anchieta foi um dos principais relatores dos hábitos culinários de nossa região. Em suas cartas ao rei de Portugal ou a outros padres do reino, relata ingredientes comuns à caça e à pesca da época (fontes exclusivas de obtenção de proteína animal), capivaras, pacas, aves variadas, peixes e frutos do mar. Destaca, também, a forte presença das frutas na alimentação local – frutas estas que, com frequência, viajavam à Europa em forma de compotas principalmente, para conservação da polpa.
É o caso, por exemplo, do abacaxi, chamado pelos portugueses de ananás. A ele foram atribuídas propriedades medicinais, sendo receitado para quem sofria de pedras nos rins.
Anchieta também registrou a alimentação à base de ingredientes que hoje podem fazer cair o queixo de muita gente: larvas de mariposa, chamadas á época de “bicho-de-taquara”, definidas como “bichos roliços e comprido, todos brancos, da grossura de um dedo, aos quais os índios chamam rahú. (...) feito com eles um guisado, em nada diferem da carne de porco estufada”, sapos, lagartos, cobras, ratos e formigas.
O certo é que, pela escassez de alimentos cultivados e pela abundância de ofertas naturais, o colonizador português se viu forçado a assimilar os costumes alimentares dos nossos nativos. E não é que gostou? Tanto que, resquícios dessa época perduram ainda hoje, como a “farofa de iça”, tradicional em cidades do Vale do Paraíba.
Pensando bem, entre uma fritada de larvas de mariposa ou um pacote desses salgadinhos industrializados (em forma de larvas!), é preferível a saúde das mariposas. Alguns ficam de queixo caído. Outros podem ficar com água na boca.

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #19 - Clique aqui e confira a revista na íntegra

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