
Meu nome é Coaquira. Coaquira de Iperoig! Tenho exatamente 516 anos de idade.Tínhamos muitas canoas. Um dia, lá no pontuaçú (hoje Ponta Grossa do Farol), surgiu um canoão que andava com o vento.
Eu era ainda menino, estava sentado na praia de Iperoig, quando vi chegar aquilo. Gritei pra toda aldeia e todos curiosos vieram ver tal canoão. Vovô Kayapika falou “Se for homem branco peguem seus arcos e matem todos!” Mas não se importaram, deram confiança, ouviram conversa fiada, aceitando camisetas, santinhos, quinquilharias. Deu no que deu, fizeram-nos de bobo, levaram nossa riqueza, tiraram nossa liberdade, e até nossas meninas os tarados engravidaram.
Vovô falava e tinha razão, depois de sessenta anos que levaram em conta suas palavras. Mas era tarde, aqueles homens brancos com suas armas de fogo já tinham dominado todo nosso povo. Já tinham nos maltratado, escravizado, massacrado e nos assassinado.
Vovô Kayapika morreu de desgosto ao saber que a jovem Metakawara, filha de Tibiriçá iria se casar com um tal de João Ramalho, braço direito de Brás Cubas, governador da Capitania de São Vicente; surgindo assim uma aliança entre brancos portugueses e índios guaianazes contra outras nações indígenas. Veja só que absurdo! O que fazer? O que fazer, naquelas alturas, era ter que acreditar em outra espécie de gente branca. Então, nós Tamoios, nos reunimos. Estava eu, Pindobuçú, Aimbiré, Araraí e Cunhambebe, diante da situação nossa saída foi uma aliança com os franceses. Contraímos muitas doenças, o que dizimou milhares de nossa gente, até Cunhambebe que morreu com um tal sarampo.
A guerra foi intensa, e por intervenção de Anchieta e Manoel da Nóbrega foi que no dia 14 de setembro selaram um acordo de paz. A Paz de Iperoig. Fomos bobos mais uma vez! Se aquele acordo de paz fosse sincero ainda estaríamos aqui, surfando e comendo camarão frito nos quiosques das praias.
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #11 - Clique aqui e confira a revista na íntegra