Na época da guerra tudo era escasso por aqui e trabalho quase não havia. O caiçara pescava e plantava, faziam suas trocas na praia. Farinha de mandioca por peixe, banana e querosene para a luz da lamparina.
Minha avó e outras mulheres, rezavam seus credos em quanto seus maridos iam para a pesca.
As crianças nasciam pelas mãos de uma parteira, que ia até a casa da mãe e, lá ficava por horas ou dias dependendo da situação,havia dificuldades com relação á medicação e quando uma criança adoecia era preciso esperar alguém ir até a cidade na farmácia do Sr Filhinho, para apanhar um preparado para o doente.
Alguns anos a frente surgiu a dona “Pitiatra”, ou dona Pitiá da Pedra Branca na Enseda, que acolhia as crianças doentes com chás e rezas, acalmando suas mães desesperadas.
Aqui o povo andava pelas trilhas, pois não havia estradas, a passagem da Praia Grande era feita pela areia, na Enseada se fazia compra na venda do Maciel
Os mortos eram transportados em redes com um tronco para carregar, um ia frente e outro atrás, de tempos em tempos fazia o revezamento, até o cortejo chegar à cidade para ao sepultamento.
Mas nem só de tristeza vivia o caiçara, faziam muitos bailes, dançavam o xiba e outras danças regionais, nessas festas era de costume servir peixe assado e batata doce. Era um povo de hábitos simples e houve um tempo que podia se banhar no Rio Tavares, aonde era possível nadar na Barra dos Pescadores e se previlegiar do sol nas areias do Cruzeiro, aonde moças embalavam seus sonhos olhando para o horizonte. Tudo aqui permanece, os sonhos de outrora, o raiar do sol na Praia Grande ainda é fascinante, mas os rios estes não possuem as mesmas águas, nem as mesmas transparências.
O pescador ainda acorda cedo e lança sua rede ao mar como outrora seus antepassados o faziam.
Nascer caiçara é simplesmente uma dádiva concedida a um ser,só o tempo poderá contar o que estas terras de muitas canoas, terras de índios, brancos e negros pôde herdar, um brilho singular, uma riqueza inestimável de histórias, contos, cantos e encantos de uma gente simples, mas não menos nobre que fez aqui o seu legado, uma tradição, uma cultura eterna que não se apagará jamais.
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #06 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.