Ubatuba em Revista

Guarás, O encantamento é inevitável

Foto: Carlos Rizzo

“...Algumas aves notáveis há também nestas partes, a fora estas que tenho referido, de que também farei mençam e em especial tratarei logo de humas maritimas a que chamam Goarás, as quaes seram pouco mais ou menos do tamanho de gaivotas. A primeira penna de que a nature as veste, he branca sem nenhuma mistura mui fina em extremo. E por espaço de dous annos pouco mais ou menos a mudam...Depois dahi a certo tempo pelo conseguinte a mudam e tornam-se a cobrir doutra mui vermelha, e tanto, como o mais fino e puro cramesim que no mundo se pode ver e nesta acabam os seus dias.”

Este texto foi extraído do livro História da Província de Santa Cruz (Brasil) de Pêro de Magalhães Gândavo publicado no ano de 1575.

Esta não é a primeira descrição do nosso guará, Eudocimus ruber. Hans Staden foi o primeiro em 1550 e Anchieta descreveu em 1560 sua visão mágica de um bando de guarás formando uma “nuvem” que lhe protegeu do sol abrasador quando atravessava Peruíbe.

Difícil descrever a sensação do avistamento de um bando dessas aves. Quando estivemos no estuário de Santos, nosso objetivo, a princípio o único, era fotografar os guarás. Mesmo num dia em que tivemos todos os tempos e temperaturas possíveis, do frio úmido à chuva, do nublado abafado ao sol escaldante, provocando oscilações de luminosidade e inviabilizando muitas fotos, o encantamento foi inevitável!
Os guarás não são grandes, medem 58 cm, Gândavo viu certo quando comparou com uma gaivota, andam em bandos de até 70 indivíduos. Vivem em mangues e a cor carmesim é provocada pela sua alimentação rica em caroteno que encontra em pequenos crustáceos exclusivos desses ambientes.
Não existe diferença de plumagem entre o macho e a fêmea, mas na época da reprodução o bico recurvo nos machos adquire uma cor negra brilhante que permite a diferenciação.
Os avanços urbanos sobre os mangues e a poluição destruindo o seu alimento restringe a ocorrência dos guarás a poucos lugares no Brasil. No estuário de Santos eles haviam perdido o ambiente, mas na década de 80 se iniciou um processo de despoluição que hoje permite o retorno dessas que muitos consideram a mais bela ave brasileira.

Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #04 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.
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