O mês era de julho. Os cabelos de Brisa amanheceram encaracolados de tanto frio que sentia naquela manhã. Ao se levantar, escorregou o primeiro cacho que ao desmanchar-se escapou um pensamento... Com que roupa iria à festa de Santo Antônio lá na capela do Itaguá? Pois não queria repetir a roupa da última festança que teve lá no Ubatumirim. Quando o assunto era festa as Terras de Yperoig era mesmo agitada, e as danças então? Xiba, Congada, Ciranda, Fita, Quadrilha, até para pagar promessa tinha a dança de São Gonçalo. Era pouco bom ai, ai, ai!
Escovou os dentes, tomou banho no rio e foi buscar sua encomenda. Rumou para a região norte a todo vapor em sua turbinada vassoura mágica. Ansiosa esperava calçar o mais belo tamanco feito na fábrica do Puruba com madeira de caxeta, levinho, levinho, assim que era bom, poderia dançar a noite inteirinha sem cansar as pernas. Quando voltou foi diretinho para o Itaguá para acompanhar os preparativos de perto. Divertia-se em ouvir as estórias aventureiras do João do Pé Rachado e atrapalhar dona Mariazinha no preparo da consertada, uma bebida feita só aqui nas Terras de Yperoig. Ninguém podia ver a Brisa, só as crianças ou pessoas mais sensíveis, ou seja, bem pouquíssimos adultos. E por isso mesmo adorava aprontar, às vezes no ensaio da dança da fita Seo Elvio ficava louco com tanto vento que vinha do nada e enrolava as fitas todas fora de ordem, mal sabia ele que era Brisa fazendo suas traquinagens.
A noite acabava de chegar em um manto de estrelas e o brilho do luar. A capela com bandeirinhas estava arrumada! O pessoal ia chegando um a um, naquela época não tinha bingo não, a sensação era o leilão. Levava quem pagava mais, tinha de bolo até leitão. Ver aquela gente toda subir o pau de sebo em busca do prêmio era a maior diversão! E que vestido iria? Pois tinha que estar bem bonita, pois a noite de Santo Antônio é a única do ano que todas as meninas e moças traçam planos para conquistar um namorado! Brisa tinha esperança de um dia conhecer um bruxinho como ela, sabia que era ainda muito menina, mas pensava que às vezes estas coisas demoram tanto a acontecer que era bom ir pedindo desde já. Enfim... Colocou um vestido de chita para ficar parecida com as meninas da vila, passou a noite inteira bailando, bailando, girando, girando, até se cansar e um bom soninho foi tirar.
Matéria Publicada na Ubatuba em Revista Semanal #03 - Clique aqui e confira a revista na íntegra.